terça-feira, 3 de novembro de 2009

A Virada do Século - por João Vitor Carvalho


Se existe uma característica em mim que chama a atenção, esta é a passionalidade. Quando o assunto é futebol, e especialmente o nosso Vasco, dou um bico pra escanteio na razão sem o menor pudor e me entrego de corpo e alma as emoções que só uma pelota de couro é capaz de produzir.


Poderia inventar uma história, uma que fosse deveras mais emocionante do que a minha verdadeira. Poderia até dizer que estive no Palestra naquele jogo histórico, e quem dera eu estivesse. Pensando melhor, eu estive. Não de corpo presente, mas meu espírito estava lá. O meu e o de 15 milhões de Vascaínos apaixonados, empurrando nosso amor mais antigo e mais sincero rumo a mais uma glória, apenas mais uma, das tantas que a nossa incomensurável sala de troféus reflete. Poderia inventar, mas contarei a minha. Talvez não seja a mais emocionante, a mais curiosa, a mais bem contada, mas é a minha.


Tinha eu meus 12 anos à época, e esperava ansioso o final da novela das 8 que, naturalmente, não me recordo o nome. O que importava de fato era a final que viria na sequência. Um confronto entre 2 dos maiores clubes do país, o embate Rio X São Paulo novamente em questão, Vasco e Palmeiras, Bacalhau e Porco, disputando uma taça internacional de grande valia.Rolava a bola no palestra, rolava a bola no meu coração.Meio segundo de peleja foi mais que o suficiente para que meu sofá se transformasse em arquibancada. Sofá que nesse caso, e em outros tantos, era mero decorativo, pois que eu me lembre, nunca consegui assistir a um jogo, ainda mais desse quilate, sentado numa poltrona. Não sou um torcedor contemplativo, sou participativo. Mais participativo e mal educado do que os ouvidos da minha mãe e da vizinhança gostariam. Ainda não inventaram palavras para substituírem a contundência de um palavrão bem dito. E esse dia eu disse todos!


O Palmeiras vinha pra cima, empurrado por sua apaixonada torcida. Tão logo, veio o primeiro o gol Palestrino, dos pés certeiros do paraguaio Arce. Mal a torcida verde comemora, e Magrão faz o segundo. Perto do fim da primeira etapa, Tuta coloca o terceiro no placar. Ainda não inventaram nada que me provoque mais mal humor do que levar um gol de um sujeito tão ruim de bola como o Tuta. Os 3 a 0 fechavam a conta do primeiro tempo, e do jogo, como ousariam afirmar os céticos. Se eu dissesse que acreditava na Vitória, estaria mentindo tanto quanto se falasse que a essa altura não chorava copiosamente. Minha mãe tentava me consolar, em vão. O que ela poderia dizer pra me animar? Que o Vasco iria virar a partida? Que faríamos o impossível? Sou passional, mas não a ponto de delirar, não nesses níveis melhor dizendo. Não queria mais saber do jogo. Troquei o canal. Fui me divertir com a burrice alheia assistindo “show do milhão”. Divertir não é bem a palavra, fui me refugiar. Desfiz até o santuário que costumava transformar minha televisão. Apaguei as velas, devolvi a santinha pro seu lugar, os barquinhos, o papagaio de porcelana, a minha pedra da sorte voltou pra gaveta. Não sou religioso, longe disso, sou só mais um maluco apaixonado cheio de manias e superstições que transformava a cada jogo a própria TV numa “salada turca”. De acordo com a importância da partida, mais apetrechos adornavam a telinha.


O segundo tempo começava enquanto eu ainda enxugava as lágrimas da tristeza, e me entretia com a ignorância que só o Silvio Santos é capaz de expor na televisão. A cabeça continuava lá no Palestra e o espírito de lá também não arredou o pé. Nem eu, tampouco o “Alviverde Imponente” poderiam supor que muita luta ainda o aguardava. Tínhamos um timaço. Tínhamos Juninhos, tínhamos Romário, e tínhamos fé, traduzida fielmente pelo anônimo com seus galhos de arruda no parque e pela “salada turca” da minha televisão, que voltou a ser rearrumada logo assim que Romário descontou. Meu pai foi um dos poucos que desde o começo dizia que esse jogo seria do Vasco. Talvez só cumprindo seu papel de pai, ao ver o filho Vascaíno desolado. Mas quando, novamente de pênalti, Romário trouxe a diferença para 1 gol, não precisava-se de muito para acreditar que a vitória era possível. Não seria mais um devaneio acreditar no impossível O tempo passava, minhas conversas com a santa na TV se intensificaram, os copos com água com açúcar desciam fáceis, assim, como água com açúcar. O gol não saía. Quem saía era meu coração, pela boca quase. E o impensado acontece. Juninho Paulista, um monstro nessa decisão, empata a partida. Já seria o suficiente para transformar em histórica essa noite. A torcida Vascaína faz festa no Palestra. Juninho pernambucano, outro monstro, bate no peito e convoca os torcedores presentes e os espíritos Vascaínos a entrarem em campo.


Quando Viola pega a bola na esquerda, parte decidido para o meio da área, vou junto com ele. A bola sobra pra Juninho paulista, que chuta pro gol. A bola desvia e sobra pra Romário, e de repente, vê- se a luz, o impossível, o improvável esta prestes a consumar-se. 15 milhões de Vascaínos, todos ao mesmo tempo, se transportam para dentro da reluzente cruz de malta no peito do nosso baixinho, e chutam a bola pro fundo da rede. É gol do Vasco! É gol dos Vascaínos! É grito que acorda os vizinhos! É lagrima de alegria! É coração em disparada! É felicidade! é chopp que se derrama no chão! É beijo na cruz! Beijo na Mãe, no Pai, no irmão, na namorada! É emoção que não se traduz! É noite que vira dia! É buzinasso pela rua! É orgulho! É paixão! É amor! É a certeza de feito a escolha certa! É a certeza de torcer pelo melhor, insuperável, incomparável, imaculado e apaixonante Club de Regatas Vasco da Gama!





História Enviada para o Livro " A Virada do Século"


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5 comentários:

  1. Sensacional brother, me fez relembrar uma das se não a maior emoção da minha vida em se tratando de esporte, me veio a tona toda aquela emoção novamente, grande post, genial texto.

    Da-lhe Vascão, somos vascaínos de alma e coração.

    Abraço
    Jeferson

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  2. Irretocável seu texto. Me diverti e me emocionei. Merece ser publicado. Parabéns, xará.

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  3. Meu Deus foi a melhor coisa do mundo que me aconteceu...Lembro que tinha 13 anos e naquela noite eu estava tão atormentada com os gritos dos flamenguistas toda vez que o palmeiras fazia gol, gritavam alto "vice da gama" mas quando o Vascão virou aquele jogo nem o mas otimista dos vascainos poderia acreditar que isso aconteceria, sai correndo feito uma louca gritando e chorando de emoção, fiquei muito rouca chorei muito e batia no meu peito dizendo que ninguem podia me chamar de vice pq meu time era campeão, sai batendo nas portas de cada flamenguista que eu conhecia não queria saber mas batia com força quase quebrando os portões...
    pra mim o vascão é isso tudo o time da virada com uma história inigualável
    MEU VERDADEIRO AMOR VASCO DA GAMA!!!!
    ARIANE SIMAS (MANAUS-AM)

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  4. Pasando para te avisar que falei do seu Blog na última postagem do meu Blog e também coloquei seu link por lá.

    Aguardo seu comentário.
    Abraço
    Jeferson
    Blog do Vascão

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  5. Meu amigo, lendo tudo isso me arrepiei por diversas vezes. Eu me lembro desse jogo perfeitamente, os gritos dos flamenguistas etc. Que esse tempo de glorias vascaínas não demorem a voltar!

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